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Odisseia do Mega Drive

Autor: Roberto Lucrezia

Acho que grande parte de quem coleciona games e teve a experiência de ter algum console entre os anos 80 e 90, sabe que, para ter um novo vídeo game você precisava vender o anterior e assim por diante, pois não era nada barato comprar um vídeo game novo.

Com certo peso na consciência em se desfazer de um console que lhe deu tantas horas de diversão, tudo acabava valendo a pena para estar com um hardware mais atual.

No meu caso, algumas compras ou negociações não me marcaram tanto. Compra em loja (Master System) ou de um console usado de um primo (Super Nintendo), mas nenhum deles me marcou tanto como a compra de um Mega Drive.

Na época eu tinha um Master System 3 Compact com Alex Kidd na memória que foi adquirido em uma loja da cidade (Hipermercado Vitória, que fechou).

Este Master System foi vendido para uma tia. E com o dinheiro na mão comecei uma caçada ao Mega Drive usado, pois novo na loja não teríamos como alcançar o valor.

Vasculhando os classificados dos jornais locais encontrei um Mega Drive com 1 cartucho e 2 controles. Não me recordo do preço, mas lembro exatamente do endereço, que é caminho entre a cidade vizinha, então cada vez que vou até lá passo por essa rua e sempre lembro do Mega Drive e da odisseia até pegá-lo.

Na época tínhamos apenas bicicleta e lá fomos nós, minha mãe com meu irmão na garupa em uma bicicleta e eu em outra. Hoje com o Google Maps pude calcular a distância, foram 14,4 Km percorridos aproximadamente 1 hora de pedalada considerando ida e volta.

Chegando lá a mãe do garoto que estava vendendo o Mega prontamente nos ofereceu água, percebendo que estávamos bem cansados. Depois de recuperar o fôlego fui ver o console, o cartucho era do Mortal Kombat 2 que apesar de paralelo rendeu muitas e muitas horas de jogatina. O Mega Drive era da versão 2 da TecToy, e estava muito bem cuidado.

Depois de fechado o negócio voltamos pra casa, e eu feliz da vida ansioso pra chegar em casa e jogar.

Esse Mega Drive foi muito bem aproveitado, e a venda dele foi uma das mais difíceis pra mim, afinal para chegar até ele praticamente atravessamos a cidade, uma verdadeira odisseia em família.

Quando iniciei minha modesta coleção, o primeiro console retro a ser adquirido teve que ser o Mega Drive, desta vez uma versão japonesa, e o considero um dos meus itens mais importantes por esta memória maravilhosa.

Meu primeiro Dactar que não era meu?

Autor: Roberto Lucrezia

Lá pelos anos 80, provavelmente entre 86 e 88, ao receber meu pai chegando do trabalho como sempre, sou surpreendido ao ver ele tirar de dentro de sua jaqueta de couro (possuía moto na época) um vídeo game. Ele volta e meia trazia alguma coisa bacana nessa jaqueta, parecia uma cartola, pois até um papagaio saiu dela. Eu mal entendia que era um clone de Atari, um Dactar. Com ele um joystick e o cartucho Q*bert.

Jogamos praticamente a noite inteira e madrugada a dentro apesar de apenas 1 jogo, ambos fomos aprendendo a mecânica do jogo na raça e que apesar de sua simplicidade foi um momento único que guardo muito bem na memória até hoje. Fui dormir feliz da vida afinal já no primeiro dia jogamos muito, e mal podia esperar para o dia seguinte.
Ao acordar pela manhã não encontro mais o console instalado na TV e pergunto para minha mãe, cadê o meu vídeo game?

Resposta dela: “Seu pai pegou emprestado com um amigo de trabalho, e teve que devolver.”

Enfim, tive um Dactar por uma noite apenas, não me recordo se demorou muito mais para ele comprar, mas pra mim foi uma eternidade. O Dactar de uma noite marcou muito mais a minha infância do que o posterior, talvez por aquele momento único jogando com meu pai, fato que só se repetiu quando conseguimos comprar um Mega Drive, mas isso fica para uma outra história.

VJB

Autor: Eduardo Loos

Gramado, na Serra Gaúcha, é um dos destinos turísticos mais procurados do Brasil. Gastronomia, belezas naturais, museus e seu clima de montanha, estão entre seus atrativos. Em julho de 1987, um grupo de amigos viajou com suas famílias até lá. Saíram de Brusque, Santa Catarina, com destino ao Hotel “Laje de Pedra”, um dos mais tradicionais da região. Meus pais estavam neste grupo, onde meu irmão Klaus e minha irmã, Marina também estavam, junto com vários amigos, que eram filhos das demais famílias do grupo.

O Hotel era excelente, estendendo-se por uma grande área, com diversas atrações para os hóspedes. Mesmo com a cidade oferecendo inúmeras opções de passeios, você poderia passar um bom tempo hospedado, entretido com as piscinas aquecidas, quadras de esportes, trilhas para caminhada e algo que chamou a atenção, não só minha, mas como de meus amigos: na sala de jogos haviam um “Fliperama” (como chamávamos os arcades naquela época) !

Sim, quando adentramos ao recinto, nossos olhos brilharam: “Commando”, “Karate Champ”, “Tokio”, “Rally X”, “Xevious”, “Galaga”, entre outros. No canto da sala, um gabinete novinho de “Pole Position” (como o adesivo “Mil Milhas”, como a Taito do Brasil nomeava o jogo na época, por aqui).

Aquela mistura de sons, de todas aquelas máquinas, em uma fase de ouro dos arcades, ainda soa como uma sinfonia em minhas lembranças. Por nossa sorte, as fichas para jogar nas máquinas custavam pouco. Tinham um preço especial para os hóspedes. Então uma gorjeta de nossos pais nos permitiam jogar muitas e muitas vezes.

Meu irmão Klaus, na época piloto profissional de Kart, tinha o “Pole Position” como seu jogo favorito. E ele tinha bom gosto, pois aquele jogo era sensacional. Mesmo sendo de 1982, era muito bem-feito e seu realismo e efeitos sonoros impressionavam.

Após nos instalarmos nos quartos, reconhecermos a área do Hotel, iniciamos os passeios pela cidade, mas querendo logo retornar, para poder jogar. Imediatamente fui pra máquina de “Commando”, que na época era ´novidade´. Meu irmão foi fazer sua primeira corrida, cravando um terceiro lugar na classificação geral. Um detalhe logo chamou sua atenção: todos as iniciais de jogadores com as cinco primeiras posições, eram as mesmas – VJB. De início pensamos que seriam as iniciais padrão, de quando você ligava a máquina e a classificação estava zerada para aquele dia. Klaus jogou mais algumas vezes, melhorando seu tempo, colocando suas iniciais – KPL – em diversas posições do ranking.

No dia seguinte, após o café da manhã e antes de um passeio, fomos até a sala de jogos. Uma das máquinas estava com defeito. Colocávamos as fichas e não iniciava os jogos. Então logo chegou um funcionário do Hotel, um senhor de bigode, que carregava um molho de chaves pendurado em seu cinto. Com uma das chaves, abriu a parte coletora de fichas, logo consertando o problema. Meu irmão foi fazer uma corrida com uma ficha apenas. Fez um ótimo tempo, podendo colocar suas iniciais no ranking. E novamente, entre as primeiras posições, todas eram “VJB”. Klaus me disse que aqueles tempos, do primeiro, segundo e terceiro lugares, eram muito baixos, difíceis de serem alcançados. Teria que fazer uma corrida “perfeita”, sem errar nenhuma curva ou troca de marcha.

Aquilo o deixou intrigado. Passou a frequentar mais a sala de jogos do que nós, “nerds” habituais de micros e consoles domésticos. Em certo momento, conseguiu um segundo lugar no ranking. Vibrou com suas iniciais ali na tela. Mas sua alegria não durou muito. Naquele mesmo dia, a noite, “VJB” estava novamente ocupando as primeiras posições, jogando “KPL” para um modesto quinto lugar. Foi quando nos demos conta que não eram iniciais da máquina, configuradas de fábrica, mas sim, de alguém no hotel, muito habilidoso (e competitivo).

Na manhã seguinte, a revelação. Um de nossos amigos, que havia acordado cedo e já frequentara o fliperama antes do café da manhã, nos trouxe a novidade: “VJB” era o técnico que havia consertado a máquina no dia anterior ! Ele era o primeiro a chegar na sala de jogos. Ligava todas as máquinas, recolhia as fichas, pois tinha todas as chaves das mesmas. E em seguida, sentava-se no Pole Position e ficava por algumas corridas ali.

Meu irmão, sabendo agora que seu algoz era real, passou a jogar ainda mais, levando a sério cada corrida, dando tapas no volante a cada erro cometido. Mas todo este treinamento valeu a pena. Naquela noite, o hotel realizou um bingo, na sala de convenções, próximo da sala de jogos. Quem estava cantando as pedras ? O próprio “VJB”. Era a deixa que Klaus precisava. Com diversas fichas na mão, jogou até conseguir realizar a corrida que estava almejando: o primeiro lugar no ranking! Anotamos o tempo que ele conseguira naquela corrida. Mais tarde, eis que “VJB” chegou e parou ao lado da máquina. Claramente foi checar o tempo e as iniciais e percebemos um belo sorriso, movimentando seu bigode de uma forma inconfundível, ao perceber que ele havia sido batido no jogo. Ele tentou disfarçar, mas olhou ao seu redor para tentar identificar quem era o dono daquele feito.

O dia da despedida chegou. Todos nós voltaríamos para casa, mas claro, não sem antes gastarmos as últimas fichas que haviam sobrado. Ao entrarmos na sala de jogos, nos deparamos com ele, “VJB”, jogando. Ficava engraçado com aquele terno justo e sapato que brilhava mais que as telas dos jogos no recinto. Ele tentou desesperadamente, mas não bateu o tempo que ele almejara desde o dia anterior. Estava nítido seu descontentamento. Ao sair da máquina, deixou o recinto por um tempo. Klaus foi fazer uma última tentativa e fez uma ótima corrida, colocando suas iniciais na primeira posição até aquele momento. Ao tirarmos nossos olhos do jogo, “VJB” estava em pé, atrás da máquina, balançando positivamente sua cabeça. Percebera naquele momento quem era seu oponente.

Tivemos que sair correndo, pois todos já aguardavam no lado externo, colocando as malas nos carros. Todos instalados, iniciamos a viagem, passando ao lado da entrada da recepção. “VJB” estava no lado de fora, e com um sorriso, acenou pra todos nós.

Nunca soubemos o seu nome ou o significado de “VJB”. Poderia ser Valério, Valdir ou Venâncio, mas nós e principalmente meu irmão, soubemos a emoção que aquela disputa trouxe. Uma rivalidade velada e o reconhecimento final entre grandes competidores.

Mas puxa, estou com sede!

Meu primeiro contato com um videogame portátil foi com menos de 10 anos de idade, um Game Boy (clássico) da Nintendo, de um dos meus primos. Eu adorava ir na casa deles, brincar, jogar Super Nintendo, mas principalmente, jogar Kirby’s Dream Land no Game Boy (e às vezes Tetris, mas quando criança eu achava chato).

Mesmo tendo de ficar perto de algum abajur ou luz mais forte quando jogando a noite, como era possível algo tão legal e divertido, jogar a qualquer hora e em qualquer lugar, e sem “estragar” a TV de ninguém? E ainda sendo possível trocar os jogos, com cartuchos que cabiam na palma da mão!

O Nintendo Game Boy (Classic)

Alguns anos se passaram, e a cada nova revista Ação Games que eu lia, ficava “babando” na página de anúncios da Nintendo da Direct Shopping, com todas as cores e sabores do então “novo” Game Boy Color, sucessor do Game Boy (clássico) por apenas 3x de R$ 66,33 e os jogos por 3x de R$ 33,00 cada – na verdade não tão “apenas” para os padrões da época, especialmente que eu ainda não ganhava dinheiro por conta própria, a não ser a mesada que recebia dos meus pais.

Então um dia no caminho voltando da escola, vi um rapaz que trabalhava em uma padaria próxima jogando um Game Boy Color do modelo transparente, e pensei: “puxa vida, que legal, mais alguém que conhece e gosta dos portáteis! Preciso puxar papo com ele.”

E foi o que eu fiz, ganhei um novo amigo, e para a minha surpresa, ele ofereceu o Game Boy Color dele emprestado por alguns dias (ou será que foram semanas?) para que eu pudesse jogar e matar a vontade. E dentre os jogos, um dos melhores possíveis para eu aproveitar o empréstimo: Pokémon Yellow!

Este não foi o primeiro game da série Pokémon para os portáteis da Nintendo,
mas um dos melhores na minha opinião, por seguir a história do Anime

Ele já estava bastante avançado na aventura, e deixou por minha conta e risco os próximos passos. Quase encerrei o jogo, não fosse por um guarda (ou melhor, todos os guardas, um em cada entrada da cidade) que não me deixava entrar na cidade de Saffron: “I’m on guard duty. Gee, I’m thirsty, though! Oh, wait there, the road’s closed.” (“Estou de guarda. Puxa, estou com sede! Oh, espere aí, a estrada está fechada.” – agora traduzido em uma fração de segundos graças ao Google Tradutor).

Até recorri ao dicionário Português – Inglês na época e também pedi ajuda para alguns amigos para traduzir a frase, e entendi que ele estava com sede, e a estrada fechada. Mas o que fazer? Como fazer? Onde ir?

A imagem é de uma versão mais recente do game,
Pokémon FireRed / LeafGreen para o Game Boy Advance

Na época ainda não era tão fácil se encontrar dicas ou detonados de games na internet. Então joguei um pouco dos outros games do meu amigo enquanto não tinha nenhuma esperança de conseguir terminar a aventura.

Pesquisei um pouco mais, inconformado, quando li algo sobre o cruzeiro S. S. Anne, uma parte do jogo que meu amigo não se recordava se havia passado. Como eu também não passei, teimei que era por causa disso que a gente não conseguia entrar na cidade.

De alguma forma o convenci, mesmo com todas as conquistas e pokémons capturados, que teríamos de começar o jogo de novo. Do zero. Dando adeus a todas as criaturas, e itens, e dinheiro acumulado. E ele topou! Acredito que fiquei com o Game Boy Color mais um bom tempo, jogando o Pokémon Yellow, e zerando o estoque de pilhas do mercado próximo de casa.

Me recordo que acordava bem cedo para jogar bastante e aproveitar a luz do dia, e até planilha em folha de caderno inventei para controlar e ver o tempo de duração de cada tipo e marca de pilha, e ver em quais era melhor investir.

Mas agora não me recordo se já foi nessa segunda tentativa ou muito tempo depois que descobri que bastava eu ter alguma bebida ou comprada ou obtida em alguma cidade antes de Saffron, para oferecer ao guarda e então conseguir entrar na cidade – dando sequência ao jogo e me encaminhando ao término.

O tempo passou, mudei de cidade, e infelizmente perdi contato com este amigo. Mas me recordo que compartilhei com ele a “verdade” sobre esta parte do jogo, e de alguma forma, incrédulos, demos algumas risadas do ocorrido…

Três Erros

Autor: Jefferson Luiz E. de Borba

É da natureza do colecionismo termos certa vaidade. Não dá para negar que uma estante bonita com os cartuchos originais enfileirados e bem conservados traz um orgulho que é uma das justificativas para seguirmos comprando velharias, ao invés de adotar um everdrive de vez, para bem das nossas contas bancárias.

Do mesmo modo, gostamos de expor nossos troféus, nossos achados, os bons negócios que fizemos, as raridades que encontramos a preço de banana.

Mas qualquer moeda tem dois lados. Se todo o colecionador já teve uma verdadeira boiada inacreditável, dificilmente não cometeu também erros, fez mau negócio, ou perdeu algum item valioso.

Minha experiência como colecionador começou em 2002, adquirindo jogos de Master System, meu console de infância. De lá para cá, marco ao menos três erros crassos que cometi, verdadeiros vacilos.

Lembrando que a ideia não é falar sobre os jogos que tínhamos quando crianças e anos depois descobrimos ser valiosos, mas sim os vacilos que demos já quando colecionadores. Vamos lá:

1º – Ninja Gaiden Trilogy e Uma Permuta… Infeliz

No final dos anos 90, começo dos anos 2000, o Camelódromo de Balneário Camboriú era minha fonte de jogos para Nintendo 64. Existiam diversas barracas de jogos que traziam os cartuchos do Paraguai, a preços melhores que os praticados pela Gradiente aqui.

Uma delas apareceu com uma penca de jogos de SNES loose, acredito que de alguma locadora perdida que o dono tenha comprado o estoque. Dentre os jogos, decidi pegar Ninja Gaiden Trilogy, já que adorava o Ninja Gaiden de Master System quando era moleque, e, bem, eram 3 jogos em um, baita negócio, certo?

Negócio fechado, então: R$ 30,00 pelo Ninja Gaiden (label perfeita) e um Castlevania Symphony of the Night piratinha pra rodar no emulador e matar a inveja de quem jogava no PSX.

Passam os anos… a locadora aqui de minha cidade está começando a se desfazer dos jogos de SNES que tem, muitos originais, para embarcar de vez na geração PS2. Bem, tô com o Ninja Gaiden ali bonitinho, parado, quase nunca usado, resolvo ir lá propor de trocar por outro jogo que eu vá jogar mais. Alguns jogos que eu me recordo que a Locadora tinha, originais, e hoje valem uma fábula: Sunset Riders, Metal Warriors…

Qual eu escolhi e fiz a troca?

Um Super Mario All-Stars todo ferradaço, com label rasgada, iniciais da locadora gravadas em ferro de solda e tudo. Mas era um jogo que a Locadora tinha repetido e, bem, era Mario né, garantia de jogo bom, troquei todo feliz e joguei bastante. Algum tempo depois a Locadora fechou, os donos se mudaram, e o estoque de jogos, só Deus sabe.

Anos depois, quando me envolvi mais com colecionismo, resolvi ver a lista de jogos raros de SNES, os jogos mais raros e caros.

Se você está lendo isso aqui, já deve imaginar o aperto enorme no coração…

E pior, o cartucho de All-Stars simplesmente evaporou nesses anos.

Em resumo, meu Ninja Gaiden Trilogy original e perfeitinho acabou sumindo na fumaça, em manobra digna do nosso Ryu Hayabusa.

2º – Avalanche de Million Sellers e a Oportunidade Perdida

O segundo arrependimento também tem como cenário o camelódromo de Balneário Camboriú.

Quem é da região e frequentava deve recordar que, ali por 2002-3, as barracas foram INFESTADAS por dezenas de jogos de SNES lacrados, novos, da coleção Million Seller.

Praticamente todas as barracas tinham cartuchos novos, aos, magotes dos clássicos Nintendo:

  • Super Mario World;
  • F-Zero;
  • The Legend of Zelda: A Link to the Past;
  • Donkey Kong Country 1, 2 e 3;
  • Super Mario Kart;
  • Super Metroid;

Outros jogos menos cotados também eram presença garantida: Space Invaders, Vegas Stakes, Tetris & Dr. Mario.

O preço por cada jogo aí, novo, lacrado, na caixinha? R$ 50.00 cada. Cinquenta mangos.

Embora eu já curtisse jogo retrô e tivesse condição de comprar mais, cai no erro de acreditar que essa oferta persistiria por mais tempo, que seria o “novo normal”, digamos assim.

Acabei comprando “só” Link to the Past (comigo até hoje – pelo menos isso!), mas deixei de lado todo o resto.

Com o tempo, obviamente, os cartuchos foram sumindo, vendidos ou dando lugar aos jogos dos sistemas mais modernos. Já o preço, foi disparando, disparando, disparando… E hoje um Zelda ou Donkey Kong original, lacradinho, a 50 mangos, só na lembrança e no arrependimento mesmo.

3ª – O Sol

Por fim, uma que me dói o coração de verdade, porque é relativamente recente e eu não tinha desculpa nenhuma para ter ignorado.

Nos primeiros 15 anos de coleção, os jogos ficavam no meu (então) quarto, na casa dos meus pais. Há uma janela inteiriça para a sacada, e o sol batia direto, sem proteção.

E por anos os jogos ficaram assim, pegando sol, sem que eu me preocupasse em preservar de algum jeito.

As consequências foram óbvias: As cores “quentes” (vermelho, roxo, amarelo, etc) das caixas foram desbotando.

O dolorido é que isso aconteceu quando eu já tinha noção de conservação, de cuidado. Por ignorância, não dei valor a esse cuidado tão óbvio, e o resultado é que hoje tenho cartuchos de Master e SNES em perfeito estado de conservação, completos, mas que a cor da lateral está desbotada, descolorida, por conta de uma burrice/descaso injustificável.

Como diria Pedro Bial, mas no filtro solar, acredite…

Enfim, estes são três pequenos vacilos durante esses quase vinte anos de coleção. Se a consciência ainda pesa, ao menos também serviram de aprendizado para o futuro.

E você, qual seu lamento no colecionismo?

É possível voltar no tempo? Sim!

Autor: Marcelo Mota

Minha família era muito pobre. Eu nasci praticamente na favela, nem banheiro tínhamos, mas graças aos meus pais, tive uma infância muito feliz! Sempre fui louco por videogames e ganhei meu primeiro console em 1983 (ano de lançamento do Atari Polyvox). Foi paixão a primeira vista! Eu não fazia mais nada, só queria jogar e jogar, sempre tive meus amigos trazendo uma caixa de sapatos cheia de cartuchos, todos os dias depois da aula, pra gente jogar (até a hora da novela, é claro). Que época mágica!

Pois bem, aos 16 anos resolvi sair de casa e buscar melhores oportunidades para ajudar a família e fui parar na distante Porto Alegre, um grande desafio para qualquer jovem com essa idade. Minha mãe ficou louca, mas eu sabia que, em breve, meus pais precisariam de ajuda, e assim foi, comecei como estoquista em uma franquia de uma marca de roupas no shopping Iguatemi.

Mineiro do interior, me lembro que eu abria a boca e o povo já começava a rir… Mergulhei no trabalho e me esforcei muito, e por 15 anos não pude mais jogar videogames, no inicio por não ter grana nem para comprar um cartucho, e depois de alguns anos, com a responsabilidade no trabalho cada vez maior, viagens frequentes e sem os amigos em casa pois estava longe de todos. Resumindo a história: consegui com muito esforço, chegar a diretoria nacional da marca, passando de estoquista à gerência de uma fábrica, com 2000 funcionários e uma cota de vendas de um bilhão de reais/ano. Assim a vida seguiu por muitos anos. Quando me dei conta, depois de 15 anos, eu estava do outro lado da moeda, agora o dinheiro vinha forte e sobrava muito, materialmente poderia ter o que eu quisesse, mas eu não tinha um minuto sequer de folga de domingo a domingo, então continuei sem jogar videogames.

Há 5 anos, comecei a pensar muito na minha infância e adolescência, e eu sempre pensava: “poxa, eu me divertia muito mais quando não tinha tanta responsabilidade e nem grana”. A saudade dos games começou a crescer e foi ficando muito forte, afinal os videogames, quase sempre, são uma das principais e mais divertidas lembranças na vida de muitas pessoas e comigo não foi diferente.

Um belo dia eu estava lendo um livro de filosofia, e lá tinha uma frase de Nietzsche, que dizia o seguinte :

Todo homem sábio deve trilhar este caminho: “camelo, leão e criança”. Eu saquei na hora o que ele queria dizer, eu já estava entre os leões… era só criar coragem.

Há 5 anos, meu irmão tragicamente faleceu em um acidente automobilístico. Eu estava em Dubai, a trabalho. A logística complicada e os atrasos nos voos fizeram eu perder o seu funeral. Foi um dos dias mais tristes da minha vida. Na manhã seguinte, criei coragem e pedi demissão de um emprego, que me rendia um excelente salário. Todo mundo me crucificou, achando que eu tinha ficado louco.

Vendi tudo que eu tinha em São Paulo e junto com minha esposa, escolhemos Balneário Camboriú, para o projeto que Nietzsche havia me alertado. Consegui diminuir tanto meus custos (afinal “criança” não tem boletos pra pagar), que hoje em dia nem carro tenho mais, sempre pensando na sequência que o filósofo me ensinou. Hoje com muita estratégia e foco, acredito ter conseguido voltar a ser criança, com 43 anos de idade !

Tenho um imóvel e vivo apenas com a renda dele e algumas consultorias esporádicas para antigos clientes, de meus tempos na indústria têxtil.

Se o foco era tentar voltar a ser criança, hoje jogo por muitas horas do dia. Pensem na felicidade, só faço o que eu fazia quando criança, acho que nunca estive tão feliz por poder voltar a jogar videogames; voltei a jogar futebol 3 vezes na semana; acordo tarde; tem dias que começo uma jogatina no Atari e vou madrugada a dentro.

E nesses dias eu percebo o quanto os games são importantes na minha vida: as 200 chamadas de celular ao longo do dia, foram trocadas por 2 chamadas da esposa.

Hoje, depois de tudo, eu tenho só uma certeza na vida: Tempo + videogames é muito mais importante do que ter dinheiro. Muito obrigado meu amigo Nietzsche! Você me ajudou a voltar a ser criança, e isso é bom demais.

Talvez eu esteja errado, mas acho que tem como trazer aquela época de volta sim, pois ela está aqui dentro de nós, sempre esteve, e a transição de volta exige muita força, mas não é impossível, ela é apenas difícil, pois a maioria dos dogmas sociais que nos prendem, são completamente sem coerência – é preciso apenas coragem (e uma esposa gamer ao lado, para apoiar).

Eu acredito que dá para voltar a ser criança.

E como já dizia Milton Nascimento: “há um menino, há um moleque morando dentro do meu coração, toda vez que o adulto balança, a criança me dá a mão!”