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Três Erros

Autor: Jefferson Luiz E. de Borba

É da natureza do colecionismo termos certa vaidade. Não dá para negar que uma estante bonita com os cartuchos originais enfileirados e bem conservados traz um orgulho que é uma das justificativas para seguirmos comprando velharias, ao invés de adotar um everdrive de vez, para bem das nossas contas bancárias.

Do mesmo modo, gostamos de expor nossos troféus, nossos achados, os bons negócios que fizemos, as raridades que encontramos a preço de banana.

Mas qualquer moeda tem dois lados. Se todo o colecionador já teve uma verdadeira boiada inacreditável, dificilmente não cometeu também erros, fez mau negócio, ou perdeu algum item valioso.

Minha experiência como colecionador começou em 2002, adquirindo jogos de Master System, meu console de infância. De lá para cá, marco ao menos três erros crassos que cometi, verdadeiros vacilos.

Lembrando que a ideia não é falar sobre os jogos que tínhamos quando crianças e anos depois descobrimos ser valiosos, mas sim os vacilos que demos já quando colecionadores. Vamos lá:

1º – Ninja Gaiden Trilogy e Uma Permuta… Infeliz

No final dos anos 90, começo dos anos 2000, o Camelódromo de Balneário Camboriú era minha fonte de jogos para Nintendo 64. Existiam diversas barracas de jogos que traziam os cartuchos do Paraguai, a preços melhores que os praticados pela Gradiente aqui.

Uma delas apareceu com uma penca de jogos de SNES loose, acredito que de alguma locadora perdida que o dono tenha comprado o estoque. Dentre os jogos, decidi pegar Ninja Gaiden Trilogy, já que adorava o Ninja Gaiden de Master System quando era moleque, e, bem, eram 3 jogos em um, baita negócio, certo?

Negócio fechado, então: R$ 30,00 pelo Ninja Gaiden (label perfeita) e um Castlevania Symphony of the Night piratinha pra rodar no emulador e matar a inveja de quem jogava no PSX.

Passam os anos… a locadora aqui de minha cidade está começando a se desfazer dos jogos de SNES que tem, muitos originais, para embarcar de vez na geração PS2. Bem, tô com o Ninja Gaiden ali bonitinho, parado, quase nunca usado, resolvo ir lá propor de trocar por outro jogo que eu vá jogar mais. Alguns jogos que eu me recordo que a Locadora tinha, originais, e hoje valem uma fábula: Sunset Riders, Metal Warriors…

Qual eu escolhi e fiz a troca?

Um Super Mario All-Stars todo ferradaço, com label rasgada, iniciais da locadora gravadas em ferro de solda e tudo. Mas era um jogo que a Locadora tinha repetido e, bem, era Mario né, garantia de jogo bom, troquei todo feliz e joguei bastante. Algum tempo depois a Locadora fechou, os donos se mudaram, e o estoque de jogos, só Deus sabe.

Anos depois, quando me envolvi mais com colecionismo, resolvi ver a lista de jogos raros de SNES, os jogos mais raros e caros.

Se você está lendo isso aqui, já deve imaginar o aperto enorme no coração…

E pior, o cartucho de All-Stars simplesmente evaporou nesses anos.

Em resumo, meu Ninja Gaiden Trilogy original e perfeitinho acabou sumindo na fumaça, em manobra digna do nosso Ryu Hayabusa.

2º – Avalanche de Million Sellers e a Oportunidade Perdida

O segundo arrependimento também tem como cenário o camelódromo de Balneário Camboriú.

Quem é da região e frequentava deve recordar que, ali por 2002-3, as barracas foram INFESTADAS por dezenas de jogos de SNES lacrados, novos, da coleção Million Seller.

Praticamente todas as barracas tinham cartuchos novos, aos, magotes dos clássicos Nintendo:

  • Super Mario World;
  • F-Zero;
  • The Legend of Zelda: A Link to the Past;
  • Donkey Kong Country 1, 2 e 3;
  • Super Mario Kart;
  • Super Metroid;

Outros jogos menos cotados também eram presença garantida: Space Invaders, Vegas Stakes, Tetris & Dr. Mario.

O preço por cada jogo aí, novo, lacrado, na caixinha? R$ 50.00 cada. Cinquenta mangos.

Embora eu já curtisse jogo retrô e tivesse condição de comprar mais, cai no erro de acreditar que essa oferta persistiria por mais tempo, que seria o “novo normal”, digamos assim.

Acabei comprando “só” Link to the Past (comigo até hoje – pelo menos isso!), mas deixei de lado todo o resto.

Com o tempo, obviamente, os cartuchos foram sumindo, vendidos ou dando lugar aos jogos dos sistemas mais modernos. Já o preço, foi disparando, disparando, disparando… E hoje um Zelda ou Donkey Kong original, lacradinho, a 50 mangos, só na lembrança e no arrependimento mesmo.

3ª – O Sol

Por fim, uma que me dói o coração de verdade, porque é relativamente recente e eu não tinha desculpa nenhuma para ter ignorado.

Nos primeiros 15 anos de coleção, os jogos ficavam no meu (então) quarto, na casa dos meus pais. Há uma janela inteiriça para a sacada, e o sol batia direto, sem proteção.

E por anos os jogos ficaram assim, pegando sol, sem que eu me preocupasse em preservar de algum jeito.

As consequências foram óbvias: As cores “quentes” (vermelho, roxo, amarelo, etc) das caixas foram desbotando.

O dolorido é que isso aconteceu quando eu já tinha noção de conservação, de cuidado. Por ignorância, não dei valor a esse cuidado tão óbvio, e o resultado é que hoje tenho cartuchos de Master e SNES em perfeito estado de conservação, completos, mas que a cor da lateral está desbotada, descolorida, por conta de uma burrice/descaso injustificável.

Como diria Pedro Bial, mas no filtro solar, acredite…

Enfim, estes são três pequenos vacilos durante esses quase vinte anos de coleção. Se a consciência ainda pesa, ao menos também serviram de aprendizado para o futuro.

E você, qual seu lamento no colecionismo?

É possível voltar no tempo? Sim!

Autor: Marcelo Mota

Minha família era muito pobre. Eu nasci praticamente na favela, nem banheiro tínhamos, mas graças aos meus pais, tive uma infância muito feliz! Sempre fui louco por videogames e ganhei meu primeiro console em 1983 (ano de lançamento do Atari Polyvox). Foi paixão a primeira vista! Eu não fazia mais nada, só queria jogar e jogar, sempre tive meus amigos trazendo uma caixa de sapatos cheia de cartuchos, todos os dias depois da aula, pra gente jogar (até a hora da novela, é claro). Que época mágica!

Pois bem, aos 16 anos resolvi sair de casa e buscar melhores oportunidades para ajudar a família e fui parar na distante Porto Alegre, um grande desafio para qualquer jovem com essa idade. Minha mãe ficou louca, mas eu sabia que, em breve, meus pais precisariam de ajuda, e assim foi, comecei como estoquista em uma franquia de uma marca de roupas no shopping Iguatemi.

Mineiro do interior, me lembro que eu abria a boca e o povo já começava a rir… Mergulhei no trabalho e me esforcei muito, e por 15 anos não pude mais jogar videogames, no inicio por não ter grana nem para comprar um cartucho, e depois de alguns anos, com a responsabilidade no trabalho cada vez maior, viagens frequentes e sem os amigos em casa pois estava longe de todos. Resumindo a história: consegui com muito esforço, chegar a diretoria nacional da marca, passando de estoquista à gerência de uma fábrica, com 2000 funcionários e uma cota de vendas de um bilhão de reais/ano. Assim a vida seguiu por muitos anos. Quando me dei conta, depois de 15 anos, eu estava do outro lado da moeda, agora o dinheiro vinha forte e sobrava muito, materialmente poderia ter o que eu quisesse, mas eu não tinha um minuto sequer de folga de domingo a domingo, então continuei sem jogar videogames.

Há 5 anos, comecei a pensar muito na minha infância e adolescência, e eu sempre pensava: “poxa, eu me divertia muito mais quando não tinha tanta responsabilidade e nem grana”. A saudade dos games começou a crescer e foi ficando muito forte, afinal os videogames, quase sempre, são uma das principais e mais divertidas lembranças na vida de muitas pessoas e comigo não foi diferente.

Um belo dia eu estava lendo um livro de filosofia, e lá tinha uma frase de Nietzsche, que dizia o seguinte :

Todo homem sábio deve trilhar este caminho: “camelo, leão e criança”. Eu saquei na hora o que ele queria dizer, eu já estava entre os leões… era só criar coragem.

Há 5 anos, meu irmão tragicamente faleceu em um acidente automobilístico. Eu estava em Dubai, a trabalho. A logística complicada e os atrasos nos voos fizeram eu perder o seu funeral. Foi um dos dias mais tristes da minha vida. Na manhã seguinte, criei coragem e pedi demissão de um emprego, que me rendia um excelente salário. Todo mundo me crucificou, achando que eu tinha ficado louco.

Vendi tudo que eu tinha em São Paulo e junto com minha esposa, escolhemos Balneário Camboriú, para o projeto que Nietzsche havia me alertado. Consegui diminuir tanto meus custos (afinal “criança” não tem boletos pra pagar), que hoje em dia nem carro tenho mais, sempre pensando na sequência que o filósofo me ensinou. Hoje com muita estratégia e foco, acredito ter conseguido voltar a ser criança, com 43 anos de idade !

Tenho um imóvel e vivo apenas com a renda dele e algumas consultorias esporádicas para antigos clientes, de meus tempos na indústria têxtil.

Se o foco era tentar voltar a ser criança, hoje jogo por muitas horas do dia. Pensem na felicidade, só faço o que eu fazia quando criança, acho que nunca estive tão feliz por poder voltar a jogar videogames; voltei a jogar futebol 3 vezes na semana; acordo tarde; tem dias que começo uma jogatina no Atari e vou madrugada a dentro.

E nesses dias eu percebo o quanto os games são importantes na minha vida: as 200 chamadas de celular ao longo do dia, foram trocadas por 2 chamadas da esposa.

Hoje, depois de tudo, eu tenho só uma certeza na vida: Tempo + videogames é muito mais importante do que ter dinheiro. Muito obrigado meu amigo Nietzsche! Você me ajudou a voltar a ser criança, e isso é bom demais.

Talvez eu esteja errado, mas acho que tem como trazer aquela época de volta sim, pois ela está aqui dentro de nós, sempre esteve, e a transição de volta exige muita força, mas não é impossível, ela é apenas difícil, pois a maioria dos dogmas sociais que nos prendem, são completamente sem coerência – é preciso apenas coragem (e uma esposa gamer ao lado, para apoiar).

Eu acredito que dá para voltar a ser criança.

E como já dizia Milton Nascimento: “há um menino, há um moleque morando dentro do meu coração, toda vez que o adulto balança, a criança me dá a mão!”