Apego

Autor: Jefferson Luiz

Esta semana vendi a um colega de grupo retrô um dos primeiros jogos que adquiri para minha coleção: Choplifter de Master System, que comprei (quase) vinte anos atrás, no saldão bota-fora da locadora Full Games de Itajaí.

Em geral, sou muito apegado às minhas coisas, novas e velhas. Só tencionei vender meu Choplifter porque tenho outro, mais novo, com a caixa de papelão intacta e label inteiro, repondo a combalida cópia de locadora.

Mesmo repetido, penei para fechar negócio. Pegava a caixa na mão e lembrava com nostalgia: aquele jogo representava o começo da minha coleção, aos 16 anos, o reencontro com o Master System, as tardes e tardes em que saia do colégio para ir à Full Games a pé, com dinheiro contado, para ver se conseguia voltar com ao menos mais um jogo do bota-fora para casa.

Ah, que tempo bom…” olha, era mesmo? Não sei. Se for pra ser sincero, acho que nem tanto assim. Como agora, havia altos e baixos.

Vinte anos depois, é fácil lembrar com carinho dos “bons tempos”, esquecendo que ter dezesseis anos pode ter sido tudo, menos um mar de rosas: hoje é fácil lembrar com carinho daquelas tardes. Difícil foi vivê-las, aborrecido e frustrado com as coisas da vida e que agora conveniente a memória dispersa.

Decidi não ceder ao apego ao passado idealizado, sintetizado naquele cartucho.

Vendi o jogo.

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Ainda sobre o apego, dois autores bem distintos, mas que gosto muito, chegaram a conclusões semelhantes.

Kurt Vonnegut, em “Matadouro Cinco”, assim definiu a personagem Montana Wildhack:

Como tantos americanos, ela estava tentando construir uma vida que fizesse sentido a partir de compras em lojas de presentes”.

Scott Turow, no thriller jurídico “Idênticos“, traz a reflexão de uma personagem sobre o shopping center gigante que é um dos principais cenários do livro:

“É como se as pessoas buscassem substituir a satisfação que antigamente havia em chegar em casa com uma grande caça abatida para o jantar por um grande pacote de presente”.

Em nosso hobby, somos envolvidos pela busca pela mesma satisfação.

Quantas compras fazemos, na busca por uma dosezinha de serotonina e uma breve sensação de realização? E até quando ela dura, depois de colocar aquele jogo novo na estante, para ficar lá até Deus sabe quando?

Você vai jogar ele? Vai mesmo? Seja sincero…

Vejo no colecionismo (meu, inclusive) a representação de um anseio de retorno a este passado idealizado. Talvez ainda estejamos procurando sentido da vida e a felicidade em um grande pacote embrulhado: Um vislumbre de Peter Pan, pra dourar a pílula dos desafios e frustrações da vida adulta.

O “novo cartucho velho” traz sim as boas lembranças dos velhos tempos; apenas temos de ser realistas que estas lembranças não correspondem à totalidade daqueles dias, que muitas vezes não víamos a hora de passar. A memória é traiçoeira, e a nostalgia, dissimulada.

E assim como já se refletiu sobre a tênue linha entre o colecionador e o acumulador, vale refletir sobre o hobby e o quanto por vezes projetamos nele a ilusão de um mundo perfeito, controlado e sem compromissos, uma infância perfeita que nunca existiu…

Enfim, vale a reflexão. Ao menos, até o próximo objeto de desejo para a estante…

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